Semana Social

Na área social, a Igreja tem “história” e “o Estado é um novato"

23 nov, 2012 • Pedro Rios

“O país não está bem, mas sem a Igreja como é que estaria?”, questiona Lino Maia, para quem, em vez de “austeridade”, o país devia adoptar a “sobriedade”. E a Igreja tem dado o exemplo.
Na área social, a Igreja tem “história” e “o Estado é um novato"

Há um país com uma ampla rede de instituições da sociedade civil, apostadas em todos tenham acesso à educação, à saúde e ao bem-estar. Esse país não está longe: esse país é Portugal, cuja rede social só tem comparação com a Finlândia, garante o presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), padre Lino Maia.

“Quase tudo o que há neste país neste domínio tem a acção da Igreja ou a inspiração dos seus fiéis leigos”, afirmou Lino Maia, esta sexta-feira, na Semana Social, que decorre na Casa Diocesana de Vilar, no Porto, até domingo.

O pároco do Porto fez uma análise histórica das respostas sociais da Igreja, das “refeições dos pobres” às Misericórdias. Conclusão: a Igreja tem “história” e “propriedade” para actuar nesta área, na qual “o Estado é um novato que, por vezes, aparece desajeitadamente”. As respostas da Igreja são, com frequência, “mais eficazes” e usam “menos recursos”.

“O país não está bem, mas sem a Igreja como é que estaria?”, questionou Lino Maia. “Em quase todas as comunidades, desde o Nordeste mais longínquo de Bragança até à aldeia mais ocidental da Ilha das Flores, há respostas. São respostas de gratuitidade. Não são empresas sociais: são geridas com alma e coração, sem pensar no capital a distribuir”.

“Sobriedade” em vez de “austeridade”
No Portugal da “austeridade”, Lino Maia propõe uma alternativa: a “sobriedade”, qualidade que abunda no tecido solidário da Igreja, composto por instituições que “evitam o extremo do lixo e o extremo do luxo”.

Quis também desfazer algumas ideias. “Às vezes, diz-se que estas instituições sociais da Igreja operam graças à generosidade do Orçamento de Estado. Não há afirmação mais louca do que esta. É evidente de que o Estado transfere para estas instituições algo do seu orçamento, mas não representa mais do que 42% dos custos destas instituições. As instituições fazem muito e muito bem com pouco – e a favor de todos”, vincou.

Em jeito de exemplo, o presidente da CNIS, grande conhecedor da realidade portuense, diz que há uma relativa paz social nos bairros sociais da cidade que se deve, em boa parte, à acção da Obra Diocesana de Promoção Social. Esta instituição particular de solidariedade social tem “colaboradores e fornecedores nestes bairros. Está nos bairros desde a sua génese”.
Apesar do diagnóstico positivo da acção da Igreja, Lino Maia lembrou que estas são, por natureza, estruturas conservadoras, menos habilitadas para resolver “novos problemas, ainda não tipificados”.

Sem medo da caridade
Lino Maia – que falou em substituição do bispo da Guatemala Álvaro Leonel Ramazzini, que não pôde participar – analisou também o tema da sessão, “Caridade e solidariedade, papel dos cristãos numa sociedade mais solidária”.

“Às vezes, depreciamos a palavra caridade para valorizarmos a palavra solidariedade. Toda a caridade é solidária, nem toda a solidariedade é caridade. Não devemos ter medo, pelo contrário, de usar a expressão e praticar caridade”, disse. “A caridade é vivência e quando é vivência é anúncio e é culto”.